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Entre Pensadores e Curumins
Escrito por Administrador    Seg, 04 de Maio de 2009 10:51    PDF Imprimir E-mail

Feriado nacional do dia do trabalhador (ou do trabalho, vai saber...), e 2 shows de peso acontecem na capital goiana. Fazia tempos que eu não ia em dois shows/eventos diferentes numa mesma noite, e só o que posso dizer inicalmente é que ambos valeram muito a pena. Primeiramente fui conferir a vinda de Gabriel O Pensador, um dos grandes nomes do Hip-Hop Pop (se é que isso existe...) nacional. O show aconteceu durante a II Bienal do Livro de Goiás, no Teatro Rio Vermelho que fica dentro do Centro de Cultura e Convenções de nossa cidade. Antes do show pude dar uma passeada pelos stands da feira, mas infelizmente não tive tempo de olhar os livros com calma.

Dando uma olhada na programação desta Bienal, posso dizer que achei a mesma muito inferior à primeira edição, realizada há quatro anos atrás (infelizmente nosso governador não sabe que Bienal se refere a um evento que ocorre de 2 em 2 anos, acho que com o excesso de bebida ele vê tudo dobrado...), quando tivemos a presença de estudiosos de referência na área da educação e da história (minha área, claro), como Jaime Pinsky e outros. Este ano não encontrei ninguém conhecido ou que valesse a pena entre as palestras e cursos oferecidos. Tudo bem, pelo menos os shows estavam compensando. Na quinta-feira tivemos a presença dos goianos do Pedra Letícia, show que infelizmente não pude ver por estar trabalhando no dia, portanto só pude comparecer ontem pra ver o Gabriel.

O show teve pouco atraso. Cheguei pouco antes das 19h, e quando faltavam uns 10 min pras 19h Gabriel O Pensadorcomeçaram a liberar a entrada do pessoal que tinha tirado os ingressos antecipadamente pela internet. A vantagem de se ir sozinho pra esses shows é que é mais fácil arrumar um lugar na frente. Assim, consegui um ótimo lugar na 3ª fila. Mal sabia eu que nem seria preciso ter me preocupado tanto. Por volta das 19:30 o Juquinha já subia ao palco para anunciar a chegada do cantor, que já entrou detonando com a música Cavaleiro Andante, seguida da clássica Cachimbo da Paz. Até o início do show todos estavam sentados no teatro, bonitinhos e comportadinhos. Mas adivinha quantas músicas durou tal comportamento? Nem 1 música. Bastou Gabriel vir mais à frente no palco pra galera se levantar e correr pra frente do palco com câmeras a postos pra fotografá-lo. E foi assim pelo resto do show. A cada música a galera que estava sentada gritava pra todos se sentarem, e os que estavam em pé respondiam gritando para todos se levantarem. Tal impasse só durou até o próprio Gabriel incendiar a galera, intimando todos a se levantarem das cadeiras. Ai foi só festa.

Gabriel O PensadorEntre o repertório, músicas clássicas de todos os álbuns foram executadas com uma performance muito animada do cantor. Gabriel andou de skate no palco na música Eu e a Tábua, chamou garotas pra cantar com ele na música 2345meia78, convidou alguns garotos pra subirem no palco na música Rap do Feio, e até descer pro meio da galera ele desceu. Um figuraça. Com muito bom humor, ele conversou com a platéia e com a banda, contou histórias, convidou membros da produção pra cantar com ele, enfim, fez uma festa completa em cima do palco. Uma das músicas que mais gostei foi Lavagem Cerebral, a única música do 1° CD que ele mandou, um manifesto contundente contra o racismo. Rolou ainda a parte 2 de Retrato de um Playboy, Pátria que Me Pariu, Astronauta, Cachimbo da Paz e a excelente Palavras Repetidas, de seu último álbum.

No BIS ele voltou e encerrou com Até Quando, uma das músicas mais fortes de seu repertório. A Gabriel O Pensadorbanda que acompanha o cara também merece destaque, os caras são muito bons. A banda é composta por batera, percussão, baixo, guitarra, um DJ e outro MC, que divide as letras com Gabriel. Um show extremamente bem cuidado e bem produzido, e que demonstra que Gabriel tem todos os méritos para ser considerado um dos grandes músicos deste país, pois além de fazer boa música, o cara escreve letras conscientes e consegue levar sua crítica à classe média de forma bem humorada e às vezes contundente, coisa que poucos conseguem. Ou seja, o cara consegue ser Mainstream sem deixar de ser underground, sem perder a veia crítica, e isto é o mais importante no seu trabalho. Quem compareceu ao Rio Vermelho nesta noite de sexta-feira pôde conferir um espetáculo grandioso, como não podia deixar de ser. Que não foi, perdeu.

Saindo do Rio Vermelho por volta das 21:30h, fui direto para o Martim Cererê, onde estava rolando o Festival 5ª Maxxxima Brasil, organizado pela Fósforo Records, e que trouxe o músico Curumin (SP) pra Juanna Barbêratocar por aqui. Antes porém pudemos ouvir algumas boas bandas do cenário musical goiano e mineiro. Infelizmente devido ao show do Gabriel não pude ver o show das duas primeiras bandas, o Chimpanzés de Gaveta e o Pato com Laranja, nova banda do Fal (ex-Rolling' Chamas). Mas pelo que ouvi falar por lá, ambos foram excelentes shows, especialmente o do Pato, muito divertido, pelo que me disseram. Cheguei por lá estava iniciando o show da banda mineira Juanna Barbêra, que faz um rock'n roll com influências diversas, como eles mesmo definem em seu Myspace: A banda Juanna Barbêra aposta em ritmos inusitados, climas densos e baladas sujas, mesclando ao rock’n’roll, o samba, o blues, o baião, o maracatu, além da tradicional pegada mariachi herdada de sua terra natal. Suas letras exploram temas irônicos e críticos sem perder a veia poética e o nonsense. Tal definição não poderia ser mais perfeita, pois é exatamente tudo isto que vemos em cima do palco. Um dos grandes destaques da banda é a presença feminina, com uma vocalista e uma guitarrista, que chamam a atenção.

Do Rock'N Roll nonsense para o Raggamuffin do grupo Ragga Rural: um trio composto por dois vocalistas e um cara no NoteBook fazendo a parte instrumental. Pra quem não sabe, o Ragga é um Ragga Ruralestilo de música que começou a ganhar projeção mundial a partir dos anos 80, vindo diretamente da Jamaica e se espalhando especialmente pelos países latinos, não só na América como na Europa. O estilo tem influências do Reggae e da Dancehall, e deu origem a uma série de sub-gêneros diferentes, o mais conhecido deles sendo o Reggaeton, que por ser um estilo bastante erótico, tem sido absorvido pelo Funk Carioca. No caso do Ragga Rural, os caras fazem uma mescla do Raggamuffin, o Reggae e o Hip-Hop, resultando numa música dançante, mas com letras contundentes. O som é interessante, mas senti falta de um maior cuidado na parte instrumental. Uma bateria e instrumentos de verdade fariam muito bem ao grupo, e daria uma sonoridade mais autêntica ao som dos caras do que o uso dos sintetizadores pura e simplesmente.

Johnny Alfredo & Seus Neurônios MongóisVoltando ao Rock'N Roll nonsense, o grupo goiano Johnny Alfredo & Seus Neurônios Mongóis subiu ao palco em seguida. O som dos caras vai bem na linha do grupo mineiro que tocou anteriormente, mas abusa mais da psicodelia e de uma sonoridade mais suja. Suas músicas variam do mais puro Rock'N Roll até ritmos mais inusitados, como o Blues e a música circense, tudo regado a letras totalmente nonsense e muita psicodelia, lembrando um pouco o grupo Os Mutantes. Achei que neste show eles estavam bem mais animados do que no primeiro show que vi deles, no Perro Loco do ano passado. Além da performance musical, os caras nos brindam ainda com uma produção visual caprichada, com fantasias de vaquinhas, pijamas, roupas de palhaços e maquiagens as mais estranhas, o que completam o espetáculo do grupo.


Continuando nossa viagem musical, a vocalista Grace Carvalho e sua excelente banda veio a seguir pra interpretar grandes clássicos do samba. A mulher canta muito, tem uma voz rouca potente e Grace Carvalhoestável, e deu um show de interpretação, colocando todos pra dançar no salão ao som de grandes clássicos de artistas como Zé Ketti, Jorge Ben e Elza Soares, entre outros. A banda Gloom, já bastante conhecida do público goiano veio a seguir com sua "nova bossanova", seja lá o que isto signifique. Pra mim o som deles lembra dois nomes: Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju. Já dá pra perceber qual a proposta da banda por ai. Mas isto não significa que seja ruim, pelo contrário. O som do grupo é bem legal, e consegue ser autêntico, mesmo lembrando muito à estas duas bandas citadas em algumas partes. Sem contar que a vocalista também tem uma grande semelhança com a Mallu Magalhães, mas felizmente é só visualmemte, pois ela toca e canta bem melhor, além das músicas serem mais animadas do que a pirralha acima citada. O uso de metais é um dos fortes da banda, contando com um trompete e um trombone. Ainda mandaram uma música com a participação do Curumin, que retribuiu a oferta durante seu show, convidando a vocalista do Gloom para cantar uma cover de "Se Gritar Pega Ladrão".

Seguindo o ritmo, o Curumin veio direto de São Paulo pra fechar a noite com seu samba psicodélico. Curumin & GloomTocando bateria e cantando, e acompanhado por um percussionista e um baixista, ambos revezando também com os samplers, Curumin fez uma avalanche musical a quem aguentou esperar até as 3 da matina pra ver o show do cara. A base de seu som é o samba, agregando influências diversas como a música eletrônica, o funk soul, o rock, entre outros, resultando numa sonoridade única e bastante versátil. Entre as músicas, destaque para as músicas de seu último disco Japan Pop Show, como Caixa-Preta, Magrela, Kyoto, Mal Estar Card, Compacto, entre outras. Com muito bom humor e bastante simpático, Curumin conquistou a platéia rapidamente, fazendo um show versátil e muito, mas muito bom. Seu show terminou por volta das 16:30 da manhã, mas valeu muito a pena. Completamente esgotado depois desta bateria de shows, só me restou ir pra casa dormir e descansar no resto do feriadão. Parabéns à produção deste festival pela escolha dos músicos e pela excelente organização dos shows. Que venham os próximos!

Por Léo Karnak
Editor do site: http://www.antitelejornal.net/

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