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Master (13/02) – Quando 27 anos de Death Metal aterrissam em Goiânia
Escrito por Administrador    Qua, 17 de Fevereiro de 2010 01:36    PDF Imprimir E-mail

Master (13/02) – Quando 27 anos de Death Metal aterrissam em Goiânia

         Os últimos meses de 2009 trouxeram uma grande notícia para os headbangers do Centro-Oeste. Estava confirmado: a Masters of Hate Tour 2010 passaria pela cidade de Goiânia. Em outras palavras, o Master, uma das lendas do Death Metal americano, aterrissaria em palcos goianos para uma noite de música extrema. Era a hora e a vez de Goiânia e sua cena fazerem sua parte. Por quê?

por Guilherme Gonçalves

 

    Porque desde o dia 13 de junho do longínquo ano de 2004, a capital do estado de Goiás não recebia um expoente tão forte do Death Metal e da música extrema internacional como um todo. Há seis anos, quando da vinda do Cannibal Corpse, o Jóquei Clube esteve abarrotado. As diversas caravanas vindas de cidades do interior, as ótimas bandas goianas presentes no cast de abertura e a grande mobilização do público nos dias que antecederam tal show davam indícios de que o Heavy Metal em Goiânia vivia um período extremamente frutífero. ... e a expectativa para o futuro apresentava os mesmos contornos positivos.

    Por vários motivos, pouco se confirmou e o que se viu foi um esvaziamento da cena nos anos seguintes, principalmente, a partir de 2007. Bons eventos, alguns bons discos e pouquíssimas boas bandas ainda surgem. Tudo muito pouco pra uma cena que já viu banda local levar cerca de mil pessoas em lançamento de demo – Eternal Devastation, demo Beware The Doom – e que hoje definha. Falta de renovação? Escassez de recursos? Infraestrutura ultrapassada? Exigüidade de interesse? Perguntas que seguem sem respostas, principalmente após a aula de organização, por parte dos envolvidos na produção, e de Death Metal, por parte das bandas, na noite do último sábado, dia 13 de fevereiro. Dia em que 27 anos de Death Metal aterrissaram em Goiânia.

    A Masters of Hate Tour 2010 começou no dia 12 de janeiro, quando o Master e o After Death embarcaram para o Brasil. O primeiro show foi logo no dia 14 do mesmo mês, em São José dos Campos. Cerca de vinte e duas datas foram agendadas. Ao longo de um mês, algo em torno de cinco shows tiveram de ser cancelados ou remarcados. Novas datas também foram sendo incluídas. No entanto, o pior aconteceu no dia 21 de janeiro, quando o guitarrista Leon Villalba e o baixista Timothy Kennely, da banda After Death, faleceram ao se afogarem em uma praia em Aracaju. Em comum acordo, Master e Predator resolveram dar seqüência à turnê em respeito ao público e a pedidos dos demais integrantes do After Death. Com a saída do grupo londrino, o Ressonância Mórfica assumiu a vaga no cast do show em Goiânia.

    E foi justamente a banda comandada por Marcão (vocal) e Luiz Souza (guitarra), o Ressonância Mórfica, a responsável por inaugurar o palco do Martim Cererê. O show teve início às 21:30, tendo o escriba aqui chegado ao recinto e adentrado ao teatro por volta das 22h. Isso porque a paixão rubro-negra e a curiosidade em conhecer o vice-campeão da Taça Guanabara falaram mais forte. Vasco e Fluminense abusaram da paciência de seus torcedores, do direito de aparentarem, cada vez mais, clubes pequenos, e só decidiram o que todos já sabiam nos pênaltis: o Vasco será, mais uma vez, vice do primeiro turno do Carioca. Pra bom entendedor, meia palavra basta.

    Voltando aos campos mórficos do Death/Grind do Ressonância, os cara tocaram várias do debut Agregados Onímodos Malditos, dentre elas “Aleivosia”, “Reação Irracional de Destrutividade”, “Pasquim”, e “Cunnilingus”. Das mais recentes, “Cacofagia”, “Opróbrio”, “Féretro” e a excelente “Mosaico da Extinção”. Na reta final do show, três petardos: “Plutocracia”, com Ronnie Stuart (ex-Dark Ages) nos vocais, “M.N.P” e “La Migra”, cover do Brujeria. Mais uma grande apresentação do Ressonância Mórfica, ainda que com um público pequeno e, de certa forma, frio.

    Na seqüencia, subiu ao palco a banda candanga, Device. Os caras tocam um Death Metal um tanto quanto arrastado, descambando em diversos momentos para o Metalcore. Dentre as bandas da noite, foi a que mais destoou das demais. O line-up conta com Ítalo Guarieiro nos vocais, Marco Mendes e Marco Di Vicente nas guitarras, Daniel Gonçalves no baixo e Daniel Montardini, que substituiu Victor Del Duca na bateria. Dentre as músicas, várias do EP Behold Darkness, de 2007, como “Kill You” e “Verme”. Destaque para “Possessed”, que possui riffs interessantes. No mais, a sensação de um show deslocado e até burocrático, por assim dizer.

 

 

    A terceira da noite foi o Predator, de Caxias do Sul. Formada no ano de 1996, a banda é um power-trio composto por: Jenner Milani (vocal e guitarra); Luciano Hoffman (baixo) e Roberto Ceccato (bateria). Death Metal sem firulas, do jeito que tem que ser. O grupo vem sendo o opening-act do Master na da Masters of Hate Tour e após a maratona de shows, demonstram total entrosamento. Destaque para Jenner Milani, grande guitarrista e que tem um vocal muito bacana, lembrando bastante do saudoso Chuck Schuldiner (RIP), do Death, inclusive na postura de palco. Comprovando o apreço dos caras pela banda americana, rolou até um cover para “The Philosopher”, assim como uma versão rápida e direta pra “Troops of Doom”, do Sepultura. Dentre as composições próprias, destaque para “In The Name of False Ideology” e “Homo Infimus”.

     Era chegada a hora do Master entrar em ação. De Paul Speckmann subir ao palco, plugar seu baixo, se aproximar do microfone e convidar a todos – “Let’s start a war?”. Os primeiros riffs de guitarra ecoam nos PA’s e você se depara com um trio sedento por tocar Death Metal de verdade. Rápido, direto e agressivo. Paul é um verdadeiro monstro das quatro cordas. Seus dedos se movem com uma velocidade absurda e guiam as palhetadas de Alex Nejezchleba e também as ações do ótimo baterista que acompanha a banda na turnê, Peter. Mesmo após um mês na estrada e não obstante ao perceptível cansaço da rotina de shows, os três mostraram muita raça e em momento algum permitiram pausas para o descanso. E mais uma vez Paul Speckmann se destaca exalando precisão e paixão pelo Metal e por estar em cima de um palco tocando. Aos quarenta e seis anos, Paul se diverte como se fosse o primeiro show. Além disso, conhece cada detalhe das músicas a ponto de poder tocar de olhos fechados.

    O set-list abarcou praticamente todos os álbuns da banda. Estiveram presentes singelas canções dos três primeiros e melhores álbuns do grupo: Master, On The Seventh Day God Created... Master, e Collection of Souls, assim como do ótimo Let’s Star a War e do penúltimo álbum de estúdio, Slaves to Society. O recém-gravado The Human Machine não contou com suas músicas no set-list devido ao fato de ter sido gravado a poucas semanas do início da turnê e inclusive pelo ex-baterista, Zdenek Pradlovsky.

      O ponto alto da apresentação ocorreu na execução da clássica “Funeral Bitch”, cantada por quase todos. A interessante interpretação de “Ring of Fire”, de Johnny Cash também foi ovacionada. Os caras deixaram o palco sob aplausos e, principalmente, tendo a certeza de terem conquistado ainda mais respeito e admiração dos presentes. Uma verdadeira aula de Death Metal aplicada por quem ajudou a fundar e sedimentar o gênero desde os 80’s, até hoje. A certeza de dever cumprido era mais do que latente.

    A última banda da noite, e com a responsabilidade de manter o alto nível do evento, foi o Spiritual Carnage. Tarefa fácil pra quem tem conhecimento de causa. Afinal, a

banda também faz parte dos pilares do estilo no país e, principalmente, em Goiás. São vinte e um anos de história e a prova da qualidade do Spiritual é o álbum Voices of Darkness. Um disco extremamente objetivo e que coloca vários nomes paparicados no cenário do Death mundial no chinelo. Tens dúvida? Compre o álbum e ouça as três primeiras músicas: “The Immortal Sadness”, “Carcass Reign” e “Eternal Darkness”. Essa tríade, sozinha, alça o Voices of Darkness à condição de melhor disco de Heavy Metal já lançado em Goiânia. Talvez outros dois ou três álbuns consigam entrar na briga. No mais, Spiritual Carnage reina. E consegue o que poucos conseguem: levar o reinado de estúdio para o palco. Greco e Guilherme reproduzem in loco riffs e solos de forma espetacular e entrosamento absurdo. Já Hemar, dispensa comentários. Vocal doentio e baixo encorpado, que estala cada nota tocada. Impecável.

    Infelizmente, poucos conseguiram aguardar o show da banda. Não devido ao horário, que foi muito bem cumprido. Mas sim pelo cansaço ou até descaso, mesmo. Uma pena. O retorno no palco também não contribuiu e esteve baixo em alguns momentos. De qualquer forma, todos os hinos da banda estiveram presentes. Além dos já supracitados, “Infernal Lifes”, “Sheltered in Flames”, “Mutilated”, “The Jackals”, “Blood Memories”, “Earth And Hate” e, principalmente, “Crystal Lord”(que música!) encerraram a noite com chave-de-ouro.

    Em síntese, grande evento. Bem programado, organizado, e divulgado. Preço justo e retorno mais do que satisfatório para os fãs de Heavy Metal, fundamentalmente, para aqueles que procuram música, não entretenimento. Que não demore mais cinco/seis anos para um gigante do Death pisar em Goiânia. Para os muitos que optam pela segunda opção, os festivais de cover se disseminam em progressão geométrica, cada vez mais fortes. É a vitória da mediocridade.

 

     A noite do dia 13/02 não foi assim. Foi histórica, ainda que para poucos.

 

 

 

 

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Última atualização ( Seg, 19 de Abril de 2010 19:08 )