Goiania Rock City

Bananada 2009: do lado de fora dos teatros...

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Então, sempre que escrevi sobre festivais, foi pra falar das bandas. Agora a realidade é outra. Agora, estou sempre a trabalho, mas nas banquinhas “lá de fora”. É como assistir a um outro festival. É do lado de fora dos teatros do Martim que você pode ter uma idéia da quantidade de pessoas que circula pelo evento. E é também do lado de fora que se concentra uma espécie diferente de pessoas, aquelas que não vão pelos shows. É difícil de imaginar, mas tem gente que, mesmo sem estar trabalhando no bar, banquinhas ou quiosques de alimentação, não entra pra ver nenhum show. Pessoas dos mais variados tipos e gostos que se amarram em ficar ali batendo papo, paquerando e enchendo o “lado de fora”.

Essas pessoas são uma espécie de termômetro do show que está rolando. No Bananadaa do ano passado, o lado de fora estava quase vazio durante o show da "Maísa indie", Mallu Magalhães. Nos outros shows o movimento era maior mas, de repente, esvaziava quando entrava alguma banda mais “conhecida” no palco. Já neste ano foi possível observar um fenômeno bem diferente. Sexta feira, dia 22 de maio, nada, ou quase nada de venda na Pin Up, a minha banquinha de bottons, chaveiros e bolsas. Aproximadamente 15 reais vendidos, e não foi muito melhor nas outras bancas. O lado de fora vazio, o de dentro não tão cheio. Seria isso reflexo do line-up do festival? Não sei dizer, mas é fato, sexta-feira foi um dia fraco.

Nenhuma novidade até aí, o desfile de cabelos coloridos não era intenso, pegar um refrigerante ou uma cerveja não era uma tarefa árdua e o banheiro químico estava até cheiroso. Coisa que não se repetiria no sábado, que prometia vendas bombando. As roupas e cabelos do pessoal que desfilava pelo festival lembravam um saquinho de m&m’s espalhado pelo terreno tortuoso. Nem o lado de dentro, nem o de fora ficaram vazios. Pessoas indo e vindo, punks, glams, new ravers (sic) e outros seres estranhos de outros planetas iam e vinham embriagados de biritas e de rock. Boas vendas para o pessoal das banquinhas, o bar lotado de gente, e os shows pegando fogo, tudo como o diabo gosta.

E aí veio o domingo, e com ele o medo de uma repetição da sexta. Eu já resfriado no frio, estive pensando se valia realmente a pena ir lá pra vender menos que no primeiro dia. A necessidade falou mais alto e me levou pra lá. Ainda bem, não foi ruim como sexta, mas foi longe de ser o que foi no sábado. O movimento das pessoas parecia ser maior do lado de fora que o de dentro. Os semblantes cansados não negavam, o divertido festival também havia sido exaustivo.

A visão de quem está do lado de fora é diferente. É do lado de fora que se ouvem as críticas, as reclamações e os elogios. As descobertas que os festivais independentes proporcionam foram destaque: Filomedusa e Boddah Diciro, entre outros, foram extremamente elogiados pelos transeuntes.

No entanto, nem tudo são flores nos jardins monstruosos. Os expositores, eu incluso, reclamaram do movimento, das bancas com o mesmo produto, e que por tudo isso venderam pouco. Na alimentação, o que pegou mal foi a impressionante quantia de zero alimentos doces e um cachorro quente que custava 4 reais - com direito a um som “no talo”, o que impedia qualquer um de ouvir o que se passava dentro dos teatros mas que gerou comentários do tipo “o som do cachorro quente melhor que o lá de dentro”.

O bananada ainda é um bom festival, mas clama por reformulação. Três dias com 14 shows por noite deixam qualquer um exausto, sem falar nas primeiras bandas da noite, geralmente menos conhecidas e que se apresentam pra quase ninguém. No domingo muitos fãs do Mugo, o headliner da noite, foram embora sem ver o show que queriam pois, apesar do atraso ter sido pequeno, segunda-feira é dia de acordar cedo para a maioria das pessoas.

Minha intenção aqui não é, de forma alguma, "malhar" o evento, mas jogar uma luz sobre certa despreocupação com questões estruturais básicas, observadas tanto do pontio de vista de público, quanto do de expositor costumeiro em festivais: Comida a preços acessíveis, mais atenção com os expositores e um festival mais compacto e seletivo.

Pode não ser uma idéia brilhante, mas pensar nisso pode impedir que o Bananada experimente o processo de decadência que alguns festivais como o clássico Abril Pro Rock e o gigantesco Tim Festival amargam nos últimos anos.

 

 

Ulisses Henrique é proprietário

da Pin Up Bottons e editor do blog

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