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Noves Fora Sarney!

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Sabe, eu devia estar fazendo um trabalho. Ele está super atrasado e eu corro o risco de ficar sem nota se não entregar logo. Mas pra quê me preocupar? Morosidade, atraso, deixar tudo pra última hora é coisa de brasileiro. Qualquer coisa, depois dou um jeitinho. É assim que funciona, meus caros, seja em esferas maiores ou menores. No meu caso, por exemplo, não vai dar em nada. No máximo vou ganhar uma nota um pouco mais baixa, coisa que não vai me atrapalhar muito, porque afinal meu diploma de pós-graduação não vale nada.

Nem o que eu já tenho, nem esse que eu vou capturar no fim do ano. Eu trabalho na Universidade Estadual de Goiás, local conhecido como uma grande instituição, uma das maiores da América Latina. É claro que não se comenta que também é uma das piores, porque esse dado é insignificante perto das suas mais de 50 unidades e pólos universitários (apesar de alguns deles não possuírem nem biblioteca). Também não se comenta que ela é um verdadeiro “cabideiro” para chegados de pessoas do governo, e que por isso eu que tenho diploma e, sem falsa modéstia, sou um bom funcionário, fico aqui digitando processos e fazendo outras tarefas que minha colega de sala, uma estagiária de 17 anos, poderia fazer, não fosse ela mais uma vítima da péssima educação das escolas públicas estaduais, e que por isso não consegue distinguir uma lei de uma declaração, ou um ofício de uma ata de reunião.

Hoje acordei desanimado por um monte de coisas “erradas” que aconteceram ontem: um show super legal foi desmarcado, tive um monte de stress no trabalho por coisas que estavam além da minha responsabilidade, e que mesmo assim eu insisto em resolver. Abri o Twitter na esperança de algum link divertido, mas o que eu encontro é Marcelo Tas com um atalho para a matéria de ontem do Jornal da Band, que mostrava o jornalista/humorista/caragrandepracaramba Danilo Gentili (do CQC) sendo agredido por seguranças do Excelentíssimo Filho de uma Rapariga Senador José Sarney, aquele que detêm o “pudê”.

Justo o Gentili, que era contra todo esse alvoroço “twitteiro” #forasarney, apelidado de movimento por seus “correligionários”. O pseudo movimento que, na mão do oportunista Marcos Mion e dO “Sandy & Júnior”, se transformou em mais uma forma de angariar seguidores para essas pseudo celebridades. Eis então que pego o Marcelo Tas “retuitando” (adoro os novos verbos!) uma mensagem do Tico Santa Cruz, vocalista dos Detonautas, com um link para o seu blog (do Sta Cruz), que falava sobre a data do movimento #forasarney no Rio de Janeiro, que atingiu a surpreendente marca de 50 pessoas!!

No texto, Tico Santa Cruz assume uma derrota pessoal, por “seu” movimento não ter dado certo”: não sei o que foi maior no texto, a fonte usada na postagem ou a pretensão do autor.

Tico Santa Cruz é um músico “famoso” e sua banda, apesar de não apresentar novidades e fazer um som bem chato, tem um relativo sucesso – mas isso não me aborrece. O que me incomoda é o cara agir como um menino bobo. Ele, como muitos dos meninos abastados do Rio, tem viagens megalomaníacas. Tico, além de crer que canta, acha que tem poder político. Pra começar, a quantidade de pessoas que vai aos shows do Detonautas (o que não é pouca gente) vai lá porque a gravadora paga jabá para que suas músicas estejam na trilha da Malhação e de outros programas com foco no público adolescente.

 

Não, não tenho provas disso, mas por favor, né? Tico, em um de seus delírios de grandeza, achou que com sua “fama” iria conseguir sensibilizar as pessoas para seu movimento de repúdio ao Senador do Amapá. Engraçado como nem sabendo que um cara “ilustre’ estaria lá, as pessoas apareceram. No texto Tico tenta provocar o brasileiro, ou pelo menos a parte do povo que lê seu blog, talvez 1% das pessoas que ouvem seu som e, com dados otimistas, 0,00000001% de quem tem alguma preocupação ou noção de política.

Por isso, Sr. Tico Santa Cruz, o fracasso não foi seu, nem meu, nem de ninguém. Esse movimento #forasarney é inexistente, pois só existe num site de relacionamentos. Nas ruas não há adesão, e na democracia a minoria tem seus desejos suplantados pelos desejos da maioria. E a maioria elege o Lula, o Sarney, o Collor. A maioria ainda tem contas a pagar, contas que podem não ser um grande problema para o sr. Tico Santa Cruz, para o sr. Marcelo Tas e que provavelmente não incomodam mais o senhor Danilo Gentili, que fez sua estreia na primeira classe de um avião há poucos dias, se não me engano.

Quem trabalha duro e ganha uma mixaria que vai embora antes da metade do mês não pode, nem consegue, se envolver politicamente com nada, sob pena de perder a porcaria do emprego, que apesar de ruim é a forma de sustentar a casa e a sanidade mental. Ainda com essa idéia na cabeça, apertei o F5 e então vejo um post de Marcelo Tas divulgando que em Brasília passaram de 50 a 100 pessoas pela manifestação!

UAUU!!! Mais ou menos o mesmo tanto de funcionários que vão trabalhar na segunda-feira no congresso. E Tas, não satisfeito, coloca uma pergunta bastante pertinente sobre as críticas ao movimento: “Quem ‘acha’ pouca gente, tá criticando quem foi ou quem não foi?”. Bem, só posso responder por mim mesmo, então lá vai: Nem um nem outro. Quem foi está de parabéns por exercer sua indignação com a política brasileira, e quem não foi, como eu, está no seu direito. Afinal, pensem comigo, qual o propósito em se reclamar, gritar e ficar com faixas na frente de assembléias, parlamentos e etc.?

Uma geração inteira de jovens pintou a cara, “tirou o Collor” e o que entrou no lugar? Vai sair o Sarney e entrar quem? Tem alguém que valha a pena de verdade por lá? É curioso, mas eu nunca vi ninguém fazendo tanto barulho pra conseguir escola pública de qualidade, por exemplo, e esse problema é tão antigo quanto o do bigode. O resultado negativo dessa campanha se dá por um motivo óbvio: a educação das pessoas que usam o Twitter, e outros meios de comunicação moderninhos, não permitiu que elas se desenvolvessem politicamente. Salvo raras exceções, os brasileiros são aculturados, politicamente analfabetos, eticamente e moralmente vazios. A união desses fatores, no final das contas, nos transforma em seres inaptos para a vida social e, no entanto, forçados a vivê-la. E isso é fácil perceber, é só ver como o brasileiro não se respeita, como os carros param em fila dupla, as pessoas se acotovelam pra entrar num ônibus e os alunos agridem os professores (foi pouco, mas não quis me alongar muito nos exemplos). Se nós não nos respeitamos em esfera social alguma, me responda: por que um cara que detém tanto “pudê” iria nos respeitar?

 

 

 

Ulisses Hemrique

é editor do blog

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