
A resenha da revista "Rolling Stone Brasil" sobre o Multishow ao Vivo da cantora Vanessa da Mata me fez pensar. Escrito por José Flávio Júnior, o texto me pareceu um pouco preconceituoso, ao mesmo tempo em que me atentou para algumas reflexões sobre a música popular brasileira atual.
O jornalista escreve que há algum tempo, a gente “ligava o rádio e ouvia voz grossa, não importava o sexo. Cássia Eller escarrava no chão. Nossa MPB parecia mais viril do que muito zagueiro da segunda divisão do Campeonato Gaúcho.”
O preconceito é pela crítica às cantoras com voz mais grossa, que nunca representaram problema pra mim. Sempre apreciei cantoras à la Janis Joplin, e também admiro muito vozes mais “femininas”, como as de Marisa Monte ou de Vanessa da Mata. Para José Flávio Júnior, a cantora mato-grossense “curou” a música brasileira das “sapatas” que estavam predominando anos atrás.

Acredito que o lugar importante que Vanessa da Mata ocupa hoje na MPB não se resume a sua interpretação doce e suave, mas principalmente se deve a sua criatividade e inventividade musical. Vanessa canta umas poesias diferentes, de um jeito meio que só dela, e invariavelmente alguma música de seu repertório fica se repetindo infinitamente na cabeça.
Este ano tem Vanessa da Mata no FICA - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, na cidade de Goiás, no último dia, 21/6. Na minha opinião muito melhor que os destaques do ano passado, Cachorro Grande e Luiz Melodia. Algumas músicas de Vanessa já fazem parte da minha trilha sonora recente, como sua interpretação para “Nossa Canção”, do Luiz Ayrão, seu lamento amoroso “Amado”, e a composição conjunta com Ben Harper, “Boa Sorte / Good Luck”, que na época do lançamento, de tão tocada, ficou chata, mas hoje preserva uma mensagem bonita e ritmo sensacional.
Cássia Eller faz muita falta na música brasileira. Seu lugar não foi ocupado pela nova safra de cantoras delicadas, como supõe Flávio Júnior. A música brasileira sempre se destacou pela diversidade de sons, interpretações, estilos. É muito bom ter oferta de discos inventivos e bem produzidos, de cantores e cantoras com os mais diferentes timbres e performances. Vanessa da Mata se destaca porque seu trabalho é bom e seu talento é bem explorado em suas canções. Não porque sua voz é delicada. E olha que quem está escrevendo isso é uma pessoa que prefere ficar a quilômetros de distância de tipos como Ana Carolina.


