
por Túlio Moreira Rocha
Fernando Rosa, editor do Senhor F (senhorf.com.br) é categórico: “A língua não é uma barreira à integração dos países da América Latina. O que dificulta a aproximação é a questão ideológica, uma histórica submissão cultural aos países centrais, particularmente aos Estados Unidos”. Com o objetivo de tentar uma aproximação cultural por meio da música, o site Senhor F está lançando as coletâneas “11 Temas”. Os dois volumes já lançados estão disponíveis para download no site. Uma maravilha.
A América Latina, se é que existe no singular, continua sendo um vácuo sem endereço. É incrível como países tão próximos estão, aparentemente, desconectados das realidades culturais uns dos outros. Já levei susto quando descobri a versão argentina de “O tempo não para”, clássico do Cazuza (ouça aqui). Depois, a Marisa Monte aparece com uma canção de delicadeza extrema em parceria com a mexicana Julieta Venegas (aqui). Daí eu me pergunto: onde isso estava que eu não tinha visto antes? A resposta é chata: estamos tão viciados na ótica estadunidense de “multiculturalismo do hemisfério norte” que nos esquecemos da cultura plural que existe abaixo da linha do Equador. É.
Ainda (e utilizo esse advérbio numa atitude de esperança) temos acesso, no que se refere às culturas da América Latina, somente àquilo que consegue passar pelo filtro imperialista (e muitas vezes se incorporar a ele) dos Estados Unidos et caterva. Segue a lista: Shakira, Paulina Rubio, Maná, Ricky Martin etc. Todo “um resto” permanece escondido em seus guetos. Música de qualidade que não consegue chegar a outros lugares, mesmo próximos, geograficamente falando.

Por isso, a iniciativa do Senhor F é louvável. O primeiro volume, lançado no começo do ano, tem preciosidades como “Não sei dançar”, da pernambucana Volver; “Com leite e café”, do candango Beto Só, e “Mi próximo movimiento”, da argentina El mató a un policía motorizado. Sem contar a oportunidade ímpar de conferir outras boas canções de grupos de vários países da América Latina e também de Portugal e Espanha, numa mistura surpreendente de estilos e sonoridades.
O segundo volume é ainda melhor. Começa com a porrada romântico-fossa-lírica-rock-calmo (ok, acabei de inventar isso) “Playas de Natal”, do espanhol Manolo Tarancón, em que o cantor vê “camisetas de Ronaldo” e “nuvens e mais nuvens carregadas de verão” na capital do Rio Grande do Norte. Lindo. Sem falar da mexicana Suave as Hell, da banda espanhola Sr. Chinarro e da - dispensa apresentações - goiana MQN. Uma parte incrível do mundo à espera de uma conferida. Já baixou, né?


